O importante é jamais desistir de ser você mesmo.
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

domingo, 7 de junho de 2015

Último Cigarro

Pra quem achava que o céu era o limite, o teto baixo deste quarto oprime bastante. Em breve a polícia baterá na porta. Daqui a uma hora. Um minuto. Um ano. Mas baterá! Não há dúvida. Certamente já sabem onde estou. Um hotel vagabundo de Porto Alegre, com duas prostitutas de cinquenta reais na entrada como testemunhas. Talvez Deus por testemunha, mas acho que ele encontra-se ocupado demais para depor a meu favor.

Como vim parar aqui? E onde está a água? É como se essas paredes mofadas fossem doses letais de amnésia que me levam a esquecer quem sou. Quem sou? Bateram na porta, ou foi o vento que batucou na janela? Invadirão pela janela? Quatro andares, sem escada de emergência. Não sou tão importante para uma manobra tão arriscada.

Uma fresta. Na rua as pessoas se movem como se nada estivesse acontecendo. Como se eu não acontecesse neste exato momento. Um rapaz apressado esbarra em uma das prostitutas, mas segue sem olhar para trás. Ela abre a boca, provável prefácio de um palavrão, mas o rapaz foi mais rápido, atravessou a rua e já está longe. Longe. A prostituta murmura algo, passa a mão nos cabelos curtos, pega o celular e esquece a raiva de alguém que chegou e se foi. Foda-se.


domingo, 15 de março de 2015

Noite


Movem-se esquivos nas sombras.
Sem olheiras, sem lágrimas.
Às vezes carregados de orvalho,
às vezes cobertos por braços
e abraços que só anseiam sorrir.
Lembram crianças dançantes,
gritando e correndo para lá,
para cá, à esquerda e à direita.
Assim percorrem o infinito,
recuperam anos perdidos,
alegram-se enganando às rugas,
deixando que sangrem cicatrizes
pelo prazer pulsante de um beijo.

Vejo o céu num copo de café.
Sinto a fumaça do barro molhado.
Um pingo d' álcool para combustível
de sonhos que sonho acordado.
Ninguém quer ser passado para trás,
acelerar passos rumo à inconsciência.
Sem perder tempo, sem ser perecível,
todos uma hora cansam, descansam.
Todos, menos o tempo que, quando
já não houver o verbo haver ou passar,
ainda será o tempo da própria inexistência.
Então caçamos tempo onde não há,
pedimos mais tempo ao tempo,
pois nunca parece tempo demais.

Seus olhos perto demais,
mais do que costumo permitir.
Mas não cerro os punhos,
não travo o queixo, não rosno,
não armo qualquer contra-golpe.
São doces como jabuticabas.
Deixo que meus dedos se afoguem
na cachoeira de seus cabelos finos.
E em seus olhos busco o infinito,
busco estrelas e galáxias distantes.
Viajo sem escala pelo céu de tua boca,
desejando que a dialética seja definitiva,
que a tese viva mais que a própria vida.
Queria que seu olhar fosse poesia,
mas era apenas café.